Fazenda Vitória

(artigo de Lauri Valdemar Krug)

A assim denominada Fazenda Vitória tem a sua origem em quinhões de terras que herdeiros de antigos Sesmeiros receberam por herança e colocaram à venda.

Antônio Luís da Costa Esteves

Antônio Luís da Costa ESTEVES, natural de Portugal, casou em Porto Alegre no ano de 1835 [1]. Foi comerciante, inicialmente estabelecido em Porto Alegre. Durante a Revolução Farroupilha, mudou-se para Rio Pardo, onde viveu por um longo período. 

Ele atuava naquela cidade como comerciante e alguns dos documentos mencionam que foi construtor. Uma das obras que realizou, em 1848, foi a famosa Ponte em Arcos Romanos, conhecida como a Ponte do Couto [2], no município de Rio Pardo, que foi projetada pelo engenheiro e agrimensor Johann Martin BUFF, de origem Prussiana, que também foi Tenente do 28º Batalhão de Caçadores, onde deu baixa por volta de 1830, como consta no livro de Juvêncio Saldanha (Mercenários do Imperador).

Esse tino comercial que ESTEVES possuía, o levou a idealizar um outro tipo de empreendimento. No início da segunda metade do século XIX, adquiriu várias áreas de terras e matos, na então denominada Serra Geral do município de Triunfo. Ele idealizou uma colônia que denominou de “Fazenda da Vitória”. Isto ocorreu no mesmo período em que Andreas KOCHENBURGER comprou terras de herdeiros da Família MORAES, para formar a Colônia de Maratá

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Aquisição da área da Fazenda Vitória

ESTEVES fez as aquisições próximo de Maratá. A primeira compra ocorreu em 1855. Todas as áreas que comprou localizavam-se do lado direito do Arroio Maratá, ao Sul da Cascata e a Leste da Colônia Maratá, com divisas ao Oeste com outros proprietários e ao Sul com terras da Fazenda denominada São João, que mais tarde passou a ser chamada de Vapor Velho.

A demarcação da Fazenda da Vitória foi possível com a unificação das várias áreas que adquiriu. Segundo um antigo mapa, o marco inicial da nova demarcação foi uma denominada Linha Judicial, que iniciava ao norte das ditas terras, na margem direita do arroio Maratá, num ponto onde desagua um pequeno arroio vindo de Oeste, denominado de Sanga do Kunz, mais ou menos 1 km acima da entrada da estrada que segue do antigo Cafundó, atual Santos Reis, para a localidade de Uricana. Este ponto de divisa se mantém até os dias atuais e separa as terras de Maratá da localidade de Santos Reis, distrito de Montenegro.

Este fato demonstra que, naquela época, já foi estabelecida uma divisa territorial entre o municipio de Montenegro e o atual municipio de Maratá. As duas localidades, Vitória e Macega, já faziam parte da Antiga Colônia Maratá e permaneceram pertencendo a Maratá.

Partindo do ponto da junção da dita sanga e do arroio Maratá, seguindo a rumo de Sul foi medida meia légua (3.300m) até chegar no topo do conhecido Paredão de Vapor Velho. Dali, costeando pelo alto do paredão, a rumo de Oeste por cerca meia légua, onde na época era a divisa da Fazenda São João “Vapor Velho”, e dali descendo novamente a rumo de Sul, por cerca de um quilômetro, até chegar na divisa das terras de herdeiros do finado fazendeiro Manoel Lopes DUARTE.

Partindo deste ponto, novamente seguindo a rumo de Oeste por mais 1.000 braças (2.200 metros), chegou na divisa das terras de João Manoel da MOTTA, um proprietário de significativa área de terras na Serra Geral. Deste ponto, seguindo a rumo de Norte, por cerca de sete quilômetros e meio, chegava-se até as proximidades da Cascata do Maratá, limite com a Colônia Maratá. Neste ponto, a Noroeste, a área limitava-se com terras dos Franceses, os Irmãos BROCHIER. 

ESTEVES, entre os anos de 1855 a 1862, reuniu cerca de 2.500 hectares como mostra a tabela abaixo, comprando áreas de diversos proprietários herdeiros. Naquele ano de 1862 foi gerado um mapa com as divisões, demarcações e medição de 48 lotes sobre as áreas unificadas, que foi denominado de Fazenda Vitória. A grande maioria dos lotes possuíam 100.000 braças². Como já comentado, os lotes vinham de Sul da parte alta do paredão, divisa com a Fazenda São João da localidade de Vapor Velho, e iam até a margem direita do Arroio Maratá.

As descrições das medidas nas escrituras oscilavam entre braças lineares, braças quadradas e léguas. Para facilitar o entendimento segue tabela abaixo com as medidas convertidas para padrões mais usuais, como metros e hectares.

A grande maioria dos nomes constantes na lista dos proprietários originais é de mulheres que haviam recebido as áreas por herança dos antigos donos, os quais as haviam recebido por concessão de Sesmarias no início do século XIX. Um dos principais donos de terras foi Manoel Lopes DUARTE, grande fazendeiro da localidade de Costa da Serra, Distrito de Montenegro. Boa parte da lista eram descendentes dele.

Tabela: Aquisições de terras

Ordem
de compras
Data da EscrituraProprietárioÁrea adquiradaFonte
1ª 10.12.1855Victoriano
Francisco
LOPES
220
x
3.300 M.
76,6 Hectares
Triunfo
Livro Nº 2
folha, 34
14.02.1856Maria
Joaquina
da TRINDADE
3.300
x
3.300 M.
1.089 Hectares
Triunfo
Livro Nº 3
folha, 01.
3ª 26.03.1856Joaquim
José
GOMES
1.650
x
6.600 M.
1.089 Hectares
Triunfo
Livro Nº 3
folha, 28
4ª 28.09.1857José
Francisco
PEREIRA
1.388
x
1.650 M.
229 Hectares
Triunfo
Livro Nº 4
folha, 47
5ª 08.10.1857Francisco
José
de VARGAS
198
x
3.330 M. 
65,34 Hectares 
Triunfo
Livro Nº 4
folha 48

A falência do empreendimento de Esteves

 Não foi localizado o processo da execução do empreendimento de Antônio ESTEVES, mas entre o período de 1862, data que consta no mapa, até a primeira venda no ano de 1866, passaram-se cerca de quatro anos, sem que acontecesse nenhuma movimentação de venda.  A confirmação de que o negócio do investidor não se concretizou está numa escritura de um dos compradores, um imigrante francês com nome de Arnoud LAPOUBLE que declarou nas escrituras em cartório de Triunfo, quando vendeu o seu lote para um colono no ano de 1866: 

fez compra desta área em praça pública perante o Juiz Municipal e do Comércio da cidade de Porto Alegre na execução que promoveu contra seus devedores Antônio Luís da Costa Esteves e sua mulher pelo Cartório do escrivão Bento José de Farias. [6]. 

Há outro documento que comprova oficialmente que o empreendimento não teve êxito, devido a dívidas que ESTEVES possuía.

A maioria das terras foram assumidas por Joaquim José Mendes RIBEIRO, casado com dona Josefina Antônia. Em 10.03.1866, em cartório de Porto Alegre, a senhora Josefina se declara viúva e nomeia o procurador senhor Antônio José Ferreira BASTOS, a quem concede todos os seus poderes para que em seu nome, como se presente fosse, possa fazer venda de todos os bens arrematados pelo seu finado marido do seu devedor Antônio Luiz da Costa ESTEVES, constantes da Carta de Arrematação, sitas no segundo distrito da Vila de Triunfo.

Esse próprio procurador BASTOS também adquiriu alguns lotes escriturados em seu próprio nome. Em alguns lotes fez venda direta, como pode ser visto nos históricos dos registros dos lotes no mapa vetorizado da Fazenda da Vitória.

Abaixo segue a transcrição da procuração na versão da escrita do português da época. (Translado na escritura de venda de lotes)

A transcrição da Procuração foi extraída da escritura de venda que foi feita em 16.04.1866 do lote nº 5 na Fazenda da Vitória para o senhor Germano PRASS, registro que consta no livro nº 15 na folha 1 do 2º distrito de Triunfo. 

[3] Porto Alegre 26 de março de 1866 – Silva Pereira. E. de Freitas , Império do Brasil, Província de São Pedro da cidade de Porto Alegre. Procuração bastante e especial que fazem dona Josefina Antonia Mendes viúva de Joaquim José Mendes Ribeiro. Saibão quantos esse público instrumento de Procuração bastante virem = digo bastante especial virem, que no ano de nascimento de Nosso Senhor de Jesus Christo de mil oitocentos e sessenta e seis aos 26 dias do mês de Março do dito ano nesta leal e valoraosa cidade de Porto Alegre Capital da Porvincia de São Pedro do Sul em meu cartório compareceu presente dona Josefiina Antonia Mendes Ribeiro e conhecida pela própria de mim tabelião e das testemunhas no fim assignadas perante as quais por ela foi dito que nomeia e constituinte seu bastante Procurador na Villa do Triunfo e seu Municipio a Antônio José Fereira Bastos a quem concede todos os seus poderes para que em seu nome como se presente fosse possa fazer venda de todos os bens arrematados pelo seu finado marido do seu devedor Antônio Luiz da Costa Esteves constantes da Carta de Arrematação sitas no segundo distrito da Villa de Triunfo assignado as competentes escrituras, fazer assentos quitações e papeis preciso para esse fim. Segundo suas ordens e avisos que serão conhecidos como parte desse instrumento, podendo se estabelecer esta em quem lhe parecer e tudo quanto for feito pelo seu dito Procurador ou subestabelecido haverá por firme e valioso. E assim me pediu que fizesse esse intrumento que lhe li e aceita e por não saber escrever assina a seu rogo José Mendes Ribeiro Guimarães com as testemunhas presente reconhecidas de mim Bento José de Farias Tabelião que subecrevi e assigno em público e rogo – em Tetemunho de verdade. 

FONTES: 

[1] Registro igreja católica Nossa Senhora das Dores- Poa-Rs.

[2] www.riopardo.rs.gov.br› portal › noticias › A PONTE DO COUTO.

[3] Cartório de Triunfo – Escrituras de Terras, contratos e procurações, livro 15. 

Todos as demais fontes referentes as escrituras constam nos lotes do mapa vetorizado.

Lauri Valdemar Krug – Janeiro de 2021