Colônia Maratá

(artigo de Lauri Valdemar Krug)

O objetivo deste artigo é apresentar a evolução da região onde se situa a Colônia Maratá, no período que vai desde 1814, quando esta ainda era uma região de sesmarias, até 1858, na fase inicial da Colônia.

AS SESMARIAS DE MARATÁ

A Colônia Maratá surgiu no ano de 1856. Para entender a sua evolução, é necessário voltar ao tempo das sesmarias. Na região em que mais tarde foi estabelecida a colônia, existiam em 1814 duas grandes sesmarias, que podem ser vistas no Mapa I abaixo. No lado Ocidental, ficava a sesmaria de Antônio Vieira Soares e no lado Oriental, a sesmaria de Guilherme Pereira de Carvalho.

Esta área de sesmarias está localizada na margem esquerda do Arroio Maratá, um afluente do lado direito do Rio Caí.

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Mapa I – Sesmarias de Maratá (1814)

(clique aqui para baixar o Mapa I em PDF)

Para visualizar a localização geográfica das sesmarias de Maratá, pode-se observar o mapa vetorizado da Colonia Maratá. Se desconsiderarmos a Picada Boa Esperança e as Terras de Schreiner, situadas a Oeste, bem como a Picada Saraiva e a Área dos Herdeiros II, situadas a Nordeste, temos exatamente o contorno da área de sesmarias de 1814.

Outra forma de entender a localização da área de sesmarias, é colocar-se na posição de alguém que fosse percorrer o contorno da área no sentido horário, começando pela sua extremidade Sul.

A extremidade Sul encontrava-se na margem esquerda do Arroio Maratá, aproximadamente onde hoje está a localidade de Coqueiral. Se dali seguíssemos na direção Noroeste, sempre costeando o Arroio Maratá, após vários quilômetros iríamos chegar na conhecida Cascata do Maratá, também denominada de Salto Grande em alguns documentos antigos [4]. Da cascata, ainda costeando o arroio, chegaríamos a um ponto conhecido como Forqueta, onde há a junção do Arroio Maratá, que segue em direção Norte-Nordeste, com outro pequeno arroio que vem do Noroeste. Seguindo este pequeno arroio, até chegar ao alto da Serra, estaríamos no ponto mais Ocidental da área de sesmarias, próximo de onde hoje se encontra a localidade de Encruzilhada do Maratá. O percurso até este ponto teria sido de cerca de 20 quilômetros.

Dali seguiríamos, sempre pelo alto da serra, em linha reta, até o extremo da área. Deste ponto desceríamos no rumo de Sudeste, passando ao Norte de Linha Comprida. Finalmente, a Leste de São José do Sul, faríamos uma inflexão para o Sul, passando ao lado da Fazenda Pareci, e retornando ao ponto de partida.

Aqui cabe um comentário sobre o nome Maratá. Esta palavra  tem origem indígena e significa “lugar de combate” [3] . É também “lugar onde os elementos (água e solo) entram em choque, num eterno combate em homenagem à natureza”. (Topônimo Guarani: “mará” = guerra, combate + “tá” = (apócope de “itá”) ou“tá” = expressão afirmativa dos guaranis: “tá de guerra”)

A FAZENDA MARATÁ

Da área de Sesmarias de Maratá, surgiu a Fazenda Maratá.

Um personagem central para entender a história da Fazenda Maratá é o imigrante português chamado José Apolinário Pereira de Moraes. Não foram localizadas fontes para se saber com exatidão a época em que ele imigrou ao Brasil. O que de concreto sobre ele se sabe é que era filho legítimo de Apolinário Pereira de Moraes, natural da Vila Flor, do Arcebispado de Braga, e que sua mãe chamava-se Bernarda Maria de Paiva, natural da freguesia de Alfena, Bispado do Porto, Portugal. Os primeiros registros sobre José Apolinário aparecem em Porto Alegre, a partir do ano de 1805, em documentos eclesiásticos que contêm os registros de batismo de seus filhos naturais [1]. 

Um outro registro  menciona um grupo seleto de comerciantes de Porto Alegre, capital da Província do Rio Grande do Sul, os quais na época decidiam os rumos da importação e do comércio [2]. Entre eles encontrava-se o mesmo José Apolinário Pereira de Moraes.

Mais tarde, por volta de 1814, ele é mencionado ao receber uma sesmaria no lugar denominado Maratá. Nesta área, ao longo dos tempos, reuniu grande quantidade de terras, compradas de outros sesmeiros e ali formando a grande Fazenda Maratá, como vista no Mapa II.

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Mapa II – Fazenda Maratá (1814-1855)

(clique aqui para baixar o Mapa II em PDF)

A primeira sesmaria concedida a José Apolinário Pereira de Moraes [5,6], aparece identificada no Mapa II como Área IV (ver no mapa vetorizado). Ali ele estabeleceu sua fazenda, onde, segundo declarou em seu testamento de 1827 [7], tinha uma “parceria comercial” com José Carvalho Ribeiro, um comerciante do Rio de Janeiro. Na fazenda, havia plantação, criação, um engenho de farinha (“atafona”) para fabricação de farinha de mandioca, um engenho de pedras para produzir farinha de milho, um alambique para produzir cachaça e também duas prensas para extração de óleo.  A fazenda usava a mão-de-obra de vários escravos. 

A sede da Fazenda Maratá ficava onde nos dias atuais ainda existe o açude secular que era utilizado para movimentar os engenhos. O açude está representado no Mapa II e pode ser visto no mapa vetorizado. Este açude também aparece em um mapa de uma medição judicial amigável [8], feita no ano de 1871. A localização é exatamente a mesma, nas proximidades do conhecido Salão Kirst, na BR 470, em São José do Sul. Com isto, não restam dúvidas sobre a existência e a localização da sede da fazenda.

O comerciante e fazendeiro José Apolinário Pereira de Moraes faleceu no ano de 1827. Após seu falecimento, seu inventário demorou a se iniciar, tendo sido realizado apenas entre 1831 e 1834, quando foram contabilizadas sete “dactas” de terras e matos, formando uma área de ao redor de 10.000 hectares [9] . Essas terras eram denominadas de Fazenda do Maratá.

A Fazenda Maratá era composta inicialmente pelas duas sesmarias que ele recebeu por concessão: a já mencionada Área IV, concedida em 1814 e a Área II, concedida em 1816. Ambas podem ser visualizadas no Mapa II. As demais áreas que compõe a Fazenda foram compradas ao longo do tempo de sesmeiros e herdeiros destes.

Em seu testamento feito pouco antes de morrer, Moraes havia designado seus bens (a dita Fazenda Maratá) a seis herdeiros.

Além das terras de José Apolinário Pereira de Moraes, a Fazenda Maratá continha ainda uma área pertencente ao Barão do Jacuí (vide Mapa II).

Para o período de 1834 a 1855, não foram localizados dados significativos, mas sabe-se que os familiares de José Apolinário Pereira de Moraes viveram sobre as terras da antiga fazenda, que mais tarde foi remodelada pelos três filhos mais velhos, os quais mantiveram produção na área até 1855. 

SURGIMENTO DA COLÔNIA MARATÁ

Outro personagem central na história da Colônia Maratá é o imigrante de origem germânica Andreas Kochenburger, que nasceu na Prússia e chegou a São Leopoldo em 1827 [10], ainda menino, com 10 anos de idade, acompanhado de seus pais e irmãos. A família se estabeleceu no Travessão da localidade de Dois Irmãos, na época pertencente à Colônia de São Leopoldo, RS. Andreas cresceu ali e tornou-se ferreiro [11]. No final do ano de 1854, Andreas idealizou um grande projeto, o de desenvolver uma colônia em outra região. Para tanto, iniciou comprando em janeiro de 1855 uma “dacta” de terras em Maratá que era de propriedade dos filhos herdeiros do finado comerciante e fazendeiro José Apolinário Pereira de Moraes. Naquele ano, em janeiro, Andreas assinou escrituras no cartório de São Leopoldo, quando comprou uma parte da fazenda do lado esquerdo do arroio Maratá com área de meia légua em quadro (Área (A) – Mapa II). No mês seguinte, em fevereiro, assinou escritura no cartório de Triunfo, comprou a outra área do lado direito do arroio (Área (B) – Mapa II) perfazendo desta forma uma área de uma légua em quadro. 

AQUISIÇÃO DAS ÁREAS A e B

FASE INICIAL DO PROJETO

A seguir apresentamos a documentação referente às compras das áreas (A) e (B) por Andreas Kochenburger.

Primeira Compra – Área (A) – Andreas Kochenburger compra de herdeiros da família Moraes Terras na Fazenda do Maratá, uma légua de frente por meia de fundo do lado esquerdo do Arroio Maratá, em 20 de janeiro de 1.855.

1ª compra: Cartório São Leopoldo – Livro 3, folha 56, Cartório São Leopoldo [12].

Pesquisa e transcrição parcial das escrituras conforme o padrão da época por: Lauri Valdemar Krug (Livro de transmissões de notas nº3 1854 a 1855):

Escritura de compra e venda que fazem o Capitão Apolinário Pereira de Moraes e José II Pereira de Moraes e sua mulher Anna Maria Mombach, sobre umas terras na fazenda do Maratá a André Kochenborger. 

Pelos referidos vendedores me foi dito que por falecimento de seu pai José Apolinário Pereira de Moraes  obtiveram por herança na Fazenda de Mattos denominada Maratá na margem direita do rio Cay uma légua de terras de frente ao Arroio Maratá e meia de fundos a qual faz sua frente com o mesmo Arroio Maratá, dividindo-se pelo Sul com o dito Arroio do Maratá pelo Norte com o Sertão, pelo Leste com terras pertencentes aos Herdeiros de Guilherme Pereira de Carvalho,cujas terras com seu competente Titulo houveram seu Pai por compra feita em 1815 de Antônio Vieira Soares, e delas vendem como de facto tem vendido de hoje por todo e sempre, ao comprador huma légua de frente ao dito arroio do Maratá por meia légua de fundos pela quantia de Cinco Contos e Quinhentos Mil Réis que receberão nesta data e dão plena quitação. 

Nota:  Nos documentos de escrituras de agora em diante aparece uma corruptela no sobrenome de Andreas, o original, o verdadeiro é:  Kochenburger nos registros aparecem Kochenborger. 

Segunda Compra – Área (B) – Andreas Kochenburger compra de herdeiros da família Moraes Terras na Fazenda do Maratá, em 09 de fevereiro de 1.855. [13].

Pesquisa e transcrição parcial das escrituras conforme o padrão da época por: Lauri Valdemar Krug:

Escriptura de Venda de humas terras, que fazem José III Apolinário Pereira de Moraes e sua mulher Severina Antônia de Moraes, Apollo Pereira de Morais, Antonio Zweibrücker e sua mulher Constância Senhorinha de Moraes Elizia Senhorinha de Moraes como abaixo se declara.

Saibão quantos esse público Instrumento de escriptura de compra e venda virem que no ano do nascimento do nosso Senhor Jesus Christo de Mil Oitocentos e cinquenta e cinco aos nove dias do mês de Fevereiro do dito ano neste Segundo Distrito da Villa de Triunpho num lugar denominado Maratá compareceram ante mim escrivão abaixo nomeado, partes havindas e ajustadas de uma como vendedores; José III Apolinário Pereira de Moraes e sua mulher Severina Antônia de Moraes , Apollo Pereira de Morais, Antonio Zweibrücker e sua mulher Constância Senhorinha de Moraes e Elizia Senhorinha de Moraes, e pela outra parte como comprador Andreas Kochenborger.

Pelos vendedores me foi dito que por falecimento do seu Pae e Sogro José Apolinário Pereira de Moraes obtiveram por herança na Fazenda de Mattos denominada Maratá na margem direita do Rio Cahy huma légua de terras de frente ao mesmo arroio do Maratá e huma dita de fundos a Serra Geral de cuja terra já venderam os Herdeiros Apolinário Pereira de Moraes e José III Apolinário Pereira ao mesmo comprador uma légua de frente ao arroio Maratá com meia légua de fundos, cuja venda os actuias vendedores confirmaram na parte em que excede ao quinhão daqueles herdeiros que com o quinhão dos actuais vendedores perfazem ao todo uma légua ao quadro entrando nesta légua, aquellas vendidas por aquelles herdeiros dividindo-se essa légua de terras pelo Sul com o Arroio do Maratá, pelo Norte com a Serra geral, pelo Oeste com terras dos herdeiros de Francisco da Costa Maia, e de João Antonio Paiva e pelo leste com terras pertencentes a Guilherme Pereira de Carvalho cujas as terras com seu competente título houveram seu Pae por compra feita em nove de Agosto de mil oitocentos e quinze (09.08.1815) a Antonio Vieira Soares.

Desta forma, Andreas Kochenburger passou a ser proprietário de uma grande área de terras, que pretendia transformar numa colônia para vender aos imigrantes colonos. Para o projeto prosperar e evoluir, era necessário tomar algumas decisões, que requeriam o envolvimento de um número maior de pessoas. Várias tarefas teriam que ser realizadas, como abrir picadas, fazer a divisão das terras em lotes, fazer as medições e comercializar os mesmos. Para que tudo isso acontecesse era preciso um investimento considerável e pessoas qualificadas.

SOCIEDADE DE TERRAS COLONIZAÇÃO PARTICULAR (STCP)

Para reunir o investimento e o pessoal requerido, Andreas Kochenburger criou uma sociedade, na qual escolheu dois sócios que eram pessoas com ótimo desempenho e boa circulação entre os setores públicos, e também qualificadas para lidar com documentações de escrituras e contratos em cartórios.

Os sócios escolhidos foram Carlos Valentim Hosking, um imigrante inglês [14], que após atuar como comerciante em Porto Alegre, se dedicou apenas à comercialização de terras pela região de Montenegro, para onde em algum momento se mudou e mais tarde faleceu. Era um homem com extrema habilidade para lidar com comercialização e gerenciamento de contratos.

O outro sócio foi João Frederico Pedro Schreiner, imigrante prussiano que veio com seus pais em 1827 [15], com a idade de 4 anos, tendo passado a infância e estudado em São Leopoldo. Foi ele o escolhido para cuidar da contabilização dos negócios, estando definido no contrato da Sociedade como “sócio caixa”. 

A seguir documentamos a criação da Sociedade montada por Andreas Kochenburger.

Contrato assinado em 02 de outubro de 1856. Escritura de contrato feito entre André Kochenburger, Carlos Valentin Hosking e João Frederico Pedro Schreiner, e suas mulheres. (Fonte: Transmissões 1.856 a 1.859 Livro Nº3 folha 30v. [16])

Pesquisa e transcrição parcial das escrituras conforme o padrão da época por: Lauri Valdemar Krug.

Fazem contrato de Sociedade de Terras para Colonização Particular da forma seguinte. O sócio André Kochenburger e sua Mulher Catharina Kochenburger declaram que sendo senhores de uma Sesmaria de terras de mattos com uma légua de frente, e outra de fundos, sita na margem do arroio Maratá que houve por compra dos herdeiros do falecido José Apolinário Pereira de Morais com cujas entrarão para a Sociedade no Valor de Vinte contos de Reis. 

O Sócio Carlos Valentin Hosking igualmente declara que possui no mesmo lugar e contiguas as terras do Sócio André Kochenborger uma dacta de terras com mil e quatrocentas braças de frente e mil e quinhentas de fundos com cujas terras também entram para a sociedade com valor de quatro contos duzentos e sessenta e quatro mil reis, cujas terras formão o Capital da Sociedade.

Os fundos apurados serão depositados em mão do Sócio Caixa João Frederico Pedro Schreiner o qual é obrigado a ter a escrituração geral da Sociedade dando conta de mez em mez das operações feitas. Os demais Sócios prestarão suas contas ao sócio gerente e Caixa João Frederico Pedro Schreiner.

MEDIÇÃO E DEMARCAÇÃO DOS LOTES

Como mencionado, Carlos Valentim Hosking que ficou responsável pela medição das terras. Alguns dias passados da assinatura do contrato da sociedade, ele propôs e fez um negócio com três dos irmãos herdeiros Moraes. Este herdeiros tinham em seus planos fazer uma medição oficial de todas as terras herdadas, a fim de que cada um soubesse o quanto lhe cabia em cada área. Porém, sem recursos, esta medição era inviável, como declaram no contrato mostrado abaixo. Os irmãos herdeiros decidiram então permutar terras dos seus quinhões por serviços de divisão, demarcação e medição com Hosking, que se responsabilizou por realizar tais tarefas. Desta forma, Hosking, através da permuta, conseguiu uma enorme quantidade de terras que mais tarde vendeu por um bom preço. Estas áreas estão marcadas no Mapa III, abaixo, bem como podem ser vistas no mapa vetorizado.

ESCRITURA DE CONTRATO E OBRIGAÇÃO

Escritura de contrato e obrigação que fazem Apollo Pereira de Moraes, Antônio Zweibrücher e sua mulher Constância Senhorinha de Moraes, Dionízio Gomes dos Santos e sua mulher Eliza Senhorinha de Moraes com Carlos Valentim Hosking abaixo declarados. Pelos contratantes me foi dito que por falecimento do seu pai e sogro José Apolinário Pereira de Moraes obtiveram por herança na fazenda de Mattos denominada do Maratá humas terras sendo e pertencendo a cada herdeiro uma sexta parte das que pertenciam ao falecido José Apolinário Pereira de Moraes e querendo medir, dividir e possuir separadamente, as que hoje lhes pertencem, as quais se acham englobadas não podendo eles contratantes por falta de meios tomar a si; e fazer a despesa necessária e porque muito lhes convém de comum acordo propõe e contratam de hoje para sempre Carlos Valentim Hosking a divisão, medição e a demarcação amigável das sextas partes das terras que hoje lhes pertencem da referida herança, ficando o aceitante obrigado a fazer a sua custa medir e demarcar as ditas terras com as linhas divisórias pelas frentes e fundos.

Dizem que possuem livres e desembaraçadas trezentas Braças situadas com frente ao arroio Maratá e com três mil braças de fundos ou a área superficial equivalente, cujas trezentas braças lhes pertencem na Sesmaria concedida ao seu dito finado pai e sogro José Apolinário Pereira de Moraes em treze de Dezembro de mil oitocentos e quatorze (13.12.1814), assim mais trezentas braças de frente com meia légua de fundo ou a área superficial equivalente de terras de mattos que possuem livres e desembaraçadas, possuídas por eles por compra feita por seu falecido pai e sogro José Apolinário Pereira de Moraes, dacta concedida ao mesmo em cinco de fevereiro de mil oitocentos e dezesseis (05.02.1816) ficando a escolha do aceitante tomar nestas dactas de terras aquelas que mais lhe convier. 

Fonte: [17] Cartório de Triunfo em 01.12.1856 no Livro nº 3 na folha 35 v, a ratificação de uma escritura pública de contrato de 11.10.1856. Pesquisa e transcrição parcial do contrato: Lauri Valdemar Krug.

No mapa II, podem ser vistas todas as áreas que pelo contrato firmado deveriam ser medidas, divididas e demarcadas, incluindo a medições dos lotes de cada Picada planejadas pela Sociedade STCP.

CONFIGURAÇÃO INICIAL DA COLÔNIA

No mapa III, aparecem os lotes e a forma como foi desenhada a Colônia de Maratá pelos seus idealizadores em sua configuração inicial.

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Mapa III – Formação da Colônia Maratá (1855-1858)

(clique aqui para baixar o Mapa III em PDF)

Da área (A), foram criadas três picadas, que foram batizadas de Picada Santa Catarina Direita, com rumo ao Norte, demarcada com 8 lotes, e de Picada Santa Catarina Esquerda, com rumo ao Sul, demarcada com 7 lotes. Estas duas picadas foram ocupadas por colonos de origem Alemã, que passaram a conhecê-las por Doppeldschneise (Picada Dupla). Já uma terceira área ao Norte foi denominada Picada Santo André Direita e dividida em 5 lotes.

Na Área (B) foram demarcados 16 lotes com 220 braças de frente e com cerca de 5 quilômetros ao fundo, no rumo de Oeste, até o topo da serra. Esta picada foi denominada Picada Santo André Esquerda.

Entre a Picada Santo André Esquerda e o leito de um dos afluentes do arroio Maratá que vem de Noroeste, em paralelo com lote nº1 desta picada, ficou uma área de sobra de terras, que foi dividida em três lotes menores perpendiculares à picada principal, contendo 75.000 braças² cada um.

Segundo as escrituras, as áreas (A) e (B) somavam uma “Légua em quadro” (Légua quadrada). Como todas as medições e as escrituras foram efetivadas em braças, aqui vamos atribuir então a conversão desta Légua em quadro, para Braças², resultando em 9.000.000 de Braças².

Abaixo encontra-se uma tabela com as áreas em Braças², metros² e Hectares de cada picada, e, no final, a área da sobra de terras composta de áreas inóspitas que não foram demarcadas, consideradas como terras devolutas. 

Tabela I

Dimensão de cada picada

ÁreaPicadaBraças²Metros²Hectares
ASntª Cat. Direita1.200.0005.808.000581
ASntª Catarina Esquerda1.799.8238.711.143871
ASntº André Direita543.2702.629.427263
BSntº André Esquerda3.678.40017.803.4561.780
BSntº André Esquerda Sobra225.0001.089.000109
Soma A+BTotal medido7.446.49336.041.0263.604

Tabela II

Área comprada por Andreas Kochenburger

ÁreaLocalizaçãoBraças²Metros²Hectares
ALado esquerdo do Arroio4.500.00021.780.0002.178
BLado direito do Arroio4.500.00021.780.0002.178
Soma A+BTotal Comprado 9.000.00043.560.0004.356
Venda EfetivadaTotal medido e vendido nas Picadas7.446.49336.041.0263.604
 SOBRA DE TERRAS1.553.5077.518.974752

SOBRA DE TERRAS

No Mapa III, a Oeste da Picada Santa Catarina Esquerda aparece uma área considerada devoluta, ou de sobra de terras, que pelos idealizadores da Colônia Maratá, na época, não foi considerada como área apropriada para cultivo, área esta que nos dias atuais é ocupada pela sede do município de Maratá. Uma boa parte da área de Sobra de Terras listada na Tabela II hoje faz parte da cidade. Uma outra parte é o morro que fica ao Norte da cidade bem como as áreas nas margens do Arroio Maratá. A partir da Cascata ambos os leitos ocupam uma área significativa com vegetação. Acredita-se que, já nos primórdios, quando foram demarcadas as Sesmarias pelos agrimensores da Província, estas áreas foram desconsideradas, por serem consideradas como inadequadas para ocupação.  Um dos arroios afluentes também tem na margem do seu leito grande área de vegetação. Trata-se de um arroio que cruza entre a Picada Santo André e a Picada Boa Esperança, vindo de Noroeste, do alto da serra, das proximidades da Encruzilhada do Maratá.

PICADA DO BARÃO

A formação da Colônia de Maratá teve, ainda na sua primeira fase, a incorporação da área de terras que pertencia a Francisco Pedro Buarque de Abreu mais conhecido, como Barão do Jacuí. No mapa III, à Leste das Picadas Santa Catarina, aparece a área denominada Picada do Barão. O Barão do Jacuí havia comprado estas terras de herdeiros de Guilherme de Carvalho. Uma área com cerca de 1.600 hectares foi dividida e demarcada em 20 lotes, cada um com 105 braças (231metros) de largura e com variadas profundidades.

Esta picada era dividida em duas alas, Norte e Sul.

A ala Norte iniciava na divisa com a Área dos Herdeiros III, que, em parte, pertence ao atual município de São José do Sul. A contagem dos lotes iniciava no nº1, à Leste da Picada, e seguia em rumo Oeste, em direção à Picada Santa Catarina Direita, até o lote nº 10. Fazia frente ao Sul com a a ala Sul da Picada e ao Norte com a Área dos Herdeiros II. Esta ala Norte mais tarde passou a ser denominada de Linha Canavial, conhecida pelos colonos habitantes da região como “Zuckerrhorberg“.

Os lotes da ala Sul, numerados de 11 a 20, também iniciavam a Leste, ficando delimitados ao Norte pela ala Norte da própria Picada e ao Sul pelo leito do arroio Maratá. Esta ala era chamada também de de Picada Uricana, que, segundo o dicionário Português, é uma espécie de palmeira. Os colonos habitantes da região a chamavam de “Sand Pikade” (Picada da Areia). 

PICADA BOA ESPERANÇA

Com o sucesso das vendas na Colônia de Maratá, os empreendedores Andreas Kochenburger e João Frederico Pedro Schreiner decidiram, no ano de 1858, comprar mais terras e formar uma picada adicional. Os conhecidos Irmãos Brochier, franceses de La-Colle Sul da França [18], haviam se estabelecido inicialmente de forma extremamente rudimentar, na região do Taquari, mais precisamente na cordilheira do Morro Azul, distrito do atual município de Paverama, onde viviam em terras devolutas. Eles possuíam uma enorme área de terras, que se limitava com o leito do afluente do Arroio Maratá que havia entre a Encruzilhada do Maratá e a denominada Forqueta (a confluência do Arroio Maratá com outro arroio que vem de Noroeste, próxima à extremidade Sul da Picada Santo André Esquerda). Suas terras totalizavam cerca de 3 mil hectares. 

De forma resumida, cabe um esclarecimento sobre a origem das terras dos Brochier. Num determinado momento, os irmãos arrendaram uma área de terras e sobre ela construíram um Engenho de Serrar, mais conhecido como Serraria. Em 1842, permutaram este Engenho por três títulos de terras, que se localizavam na área onde hoje é o centro da cidade de Brochier. As ditas terras confrontavam com o mencionado afluente do arroio Maratá, fazendo divisa com as terras da Picada Santo André.

Brochier recebeu a documentação de escrituras e a legalização no final de 1858 [19]. Somente depois disto, como proprietário dos ditos títulos, pôde passar escrituras, o que correu nos últimos dias daquele ano, no cartório de São Leopoldo [20].

Os sócios, Andreas Kochenburger e João Frederico Pedro Schreiner, compraram uma parte destas terras, marcada como Picada Boa Esperança no Mapa IV abaixo. Partindo do ponto conhecido como Forqueta e costeando o leito do arroio afluente do Maratá no rumo de Noroeste, mediram meia légua (3.300m). Deste ponto, rumo de Sul, seguiram e mediram cerca de 2,5 quilômetros, até o topo de um morro, onde havia uma divisa, chamada de Travessão. Descendo a leste, foram até um pouco antes do arroio Maratá, e finalmente seguiram novamente a rumo de Norte, até a Forqueta, o ponto de partida da medição.  

Estas terras foram escrituradas com área de 1.762.088 braças² (853 hectares), que os sócios mandaram medir, dividir e demarcar em 15 lotes, com frente ao arroio, com largura de 100 braças (220 metros) cada lote. A localização do lote de nº 1 foi definida como sendo um ponto distante 48 braças (cerca de 100 metros) da Forqueta no rumo de Noroeste. O lote mais distante seguindo o leito do arroio recebeu o nº 15. Essa área foi denominada de Picada Boa Esperança, e existe até os dias atuais. Os colonos habitantes de Maratá a chamavam de “Franzosenschneis”, a Picada dos Franceses.

TERRAS DE SCHREINER

A área de terras que ficava entre a gleba dos 15 lotes comprados dos Brochier (a Picada Boa Esperança) e a margem direita do leito do arroio Maratá igualmente foi comprada nesta mesma data e escriturada para João Frederico Pedro Schreiner. Este mais tarde a vendeu para novos imigrantes que vieram para a região. Nos documentos, esta área também aparece como pertencendo a Picada Boa Esperança, mas, para fins de compreensão, no mapa vetorizado ela foi denominada de Terras de Schreiner (vide também Mapa IV abaixo). A área foi escriturada com 487.912 Braças² ou 236 hectares.

COLÔNIA MARATÁ EM 1858

Abaixo, no Mapa IV, mostramos a configuração da Colônia Maratá em 1858.

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Mapa IV – Colônia Maratá (1858)

(clique aqui para baixar o Mapa IV em PDF)

Para concluir seguem, para cada picada, o número de lotes e a respectiva área em Hectares. Nesta fase inicial da formação da Colônia Maratá foram vendidos 74 lotes. Estes dados foram todos comprovados através de documentos de contratos e escrituras de compra e venda de terras. Os mesmos dados constam da Tabela do Mapa IV.  

PicadaNº de lotesÁrea em Hectares
Santa Catarina Direita8581
Santa Catarina Esquerda7871
Santo André Direita5263
Santo André Esquerda161.780
Santo André – Sobra3109
Boa Esperança15853
Picada do Barão201.600
Terras do Schreiner Não dividido em lotes236
Total dos lotes 747.045

UNIDADES DE MEDIÇÕES USADAS NA ÉPOCA

Para aqueles menos habituados com as unidades de medidas utilizadas no passado que aparecem nas escrituras de terras de várias formas, seguem abaixo algumas informações.

Braça
=
2,2 metros
Braça²
=
4,84 metros
Légua
=
6.600 metros
Légua²
=
43.560.000 metros
Hectare
=
10.000 m2
Frente
100 braças
x
2,2
=
220 m
Fundos
1.500 braças
x
2,2
=
3.300 m
Área
220m
x
3.300m
=
726.000 m²
Área em Hectares
726.000 m²
/
10.000
=
72,6 hectares
Cálculo exemplo de conversão de braças para hectares
Frente x Fundos
100 x 1.500
=
150.000 Braças²
Área em Metros²
150.000 x 4,84
=
726.000m²
Área em Hectares
726.000/10.000
=
72,6 Hectares
Calculo direto por Braças para chegar em Hectares

Bibliografia consultada

[1] – Igreja Matriz Nossa Senhora Madre de Deus, batismos casamentos, óbitos.

[2] – Associação Nacional de História – ANPU On-line version ISSN 1806-9347- Rev. bras. Hist. vol.20 n.39 São Paulo 2000.

[3] – Origem de nome de Município, pág. 162, 2007, Giovani Cherini- Editora Imprensa Livre.

[4] – Regularização terras dos Brochier. AHRGS – Autos de medição nº 35 – Lei 1850.

[5] – Montengro de Ontem e de Hoje Volume 1 – 1979 pag.84.

[6] – AHRGS –  Lista sesmeiros.

[7] – APERS – Testamento, Autos nº 1.121 maço nº 58. 

[8] – APERS – Medição Judicial Amigável, Cartório da Civil – Montenegro Autos nº 349, maço nº 7.

[9] – APERS – Inventário 1831 – 1º cartório de Órfãos Poa, Autos nº 1.667 maço nº 48. 

[10] – Imigrantes Alemães 1824 a 1853 – pág.63, Gilson Justino da Rosa – EST Edições. 

[11] – Povoadores Alemães do Rio Grande do Sul – pág.184, Otávio Augusto Boni Licht EST Edições.

[12] – Pesquisa virtual – Family Search – diversos – São Leopoldo: Registros de escrituras. Notas e transmissões- Do Livro nº 1 1846 ao Livro nº 9 1862.

[13] – APERS – Arquivo Público do estado do Rio Grande do Sul, livros pesquisados, Triunfo: Registros de escrituras. Notas e transmissões- Do Livro nº 2 de 1845 ao Livro nº 31 anos 1874. São João do Montenegro: Registros de escrituras. Notas e transmissões- Dos Livros de 1873 a 1879.

[14] – APERS – Dados do Inventário 1891- Autos nº 546, maço, 21- Cartório de Órfãos e Ausentes- Montenegro.

[15] –  Imigrantes Alemães 1824 a 1853 – pág.53, Gilson Justino da Rosa – EST Edições. 

[16] – Family Search – Triunfo, Transmissões 1.856 a 1.859 Livro Nº3 folha 30v.

[17] – Family Search – Cartório de Triunfo em 01.12.1856 no Livro nº 3 na folha 35 v.

[18] – Montenegro – Publicação Oficial, trabalho de José de Campos Neto, Secretário Municipal 1924.

[19] – AHRS– Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul – Autos de medição nº 35 – Brochier (Regularização dos títulos de terras).

[20] – Family Search – Cartório de São Leopoldo: Registros de escrituras. Notas e transmissões- Do Livro nº 1 de 1846 ao Livro nº 9 1862. 

Pesquisa gerais virtuais sobre as famílias envolvidas na Colônia: pelos arquivos de Family Search.

Paróquia Nossa Senhora Madre de Deus – Porto Alegre, Rs, batismos casamentos, óbitos.

Paróquia Bom Jesus – Triunfo, Rs, batismos casamentos, óbitos.

Paróquia Nossa Senhora da Conceição – São Leopoldo, Rs, batismos, casamentos, óbitos.

Paróquia Santa Ana do Rio dos Sinos – Capela de Santana, Rs, batismos, casamentos, óbitos.

Paróquia São Miguel – Dois Irmãos, Rs, batismos, casamentos, óbitos.

Paróquia São João – São José do Hortêncio, Rs, batismos, casamentos, óbitos.

Paróquia São João Batista – Montenegro, Rs, batismos, casamentos, óbitos.

Consultas gerais virtuais sobre contratos e escrituras da Colônia: pelos arquivos de Family Search.

Triunfo: Registros de escrituras. Notas e transmissões- Do Livro nº 2 de 1845 ao Livro nº 31 ao ano 1874.

São João do Montenegro: Registros de escrituras. Notas e transmissões- Do Livros de 1873 a 1879.

São Leopoldo: Registros de escrituras. Notas e transmissões- Do Livro nº 1 1846 ao Livro nº 9 1862. 

Outras Fontes consultadas:

Estação da Esperança- Histórias e Memórias de Maratá – Bernardo Schneider- 2011 Editora OIKOS.

Primórdios – Bernardo Schneider- 2014 Editora OIKOS. 

Montengro de  Ontem e de Hoje Volume 1I – 1982.

Cemitérios de Colônias Alemãs no Rio Grande do Sul – Werner Mabilde Dullius e Hugo Egon Petry, 1985 Editora Gráfica Metrópole S/A.

Agradecimentos aos Colaboradores:

Bernardo Schneider

Carli Roberto Kochenborger

Lenara Cristiane Krug

Mirian Löblein

Miguel José Haupenthal

Paulo Reinaldo Freitag

Um agradecimento especial ao Prof. Carlos Alberto Heuser pela valiosa contribuição e  dedicação na organização do conteúdo dessa pesquisa e por disponibilizar uma ferramenta fantástica para divulgação da história de nosso Estado. 

Lauri Valdemar Krug 
Setembro de 2020