Colônia de Santa Cruz

(artigo de Carlos Heuser)

Com o apaziguamento da Província do Rio Grande que seguiu à Revolução Farroupilha, a colonização que havia iniciado em 1824 foi retomada. A Colônia de Santa Cruz fez parte deste processo, tendo recebido os primeiros colonizadores em 1849.

Mapas da colônia

Para esta colônia foi possível obter diversos mapas, cobrindo várias épocas e diferentes regiões da colônia.

  • O primeiro mapa da colônia que encontramos é de 1859, portanto dez anos depois do estabelecimento da colônia. Ele foi confeccionado por João Martins Buff, Diretor da Colônia entre 1850 e 1859. Nele aparecem as primeiras picadas criadas. Parte delas aparece de forma diversa em mapas posteriores, o que indica que Buff inseriu no mapa não somente os lotes que já tinha demarcado, mas também aqueles que estavam projetados. Este mapa me foi passado por Otavio Licht. Foi o mapa por ele utilizado como base para a confecção do mapa vetorizado de Santa Cruz.
  • No ano de 1870, foi confeccionando um pequeno mapa da sede da Colônia. O mapa é interessante por mostrar os nomes originais que tinham as ruas, bem como a distribuição dos terrenos dentro das quadras, que perdura até a atualidade. O mapa aparece no livro de Hardy Martin (vide bibliografia abaixo).
  • Em 1881, foi confeccionado um novo mapa, deste vez por Carlos Trein Filho, personagem importante da história de Santa Cruz, pois além de agrimensor, ocupou vários cargos, entre eles os de Diretor da Colônia e de Vereador. Ao contrário do mapa de Buff, este mapa parece ser mais fiel à realidade, mostrando a lotes efetivamente medidos. Além disso, a numeração de lotes provavelmente corresponde aos registros de prazos coloniais feitos pelo próprio Carlos Trein para toda região na mesma época. Estes registros encontram-se no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul e estão disponíveis no repositório Familysearch (ao final deste artigo, incluí os links para os respectivos cadastros).
    Por alguma razão que não pude determinar, algumas picadas próximas à sede da colônia, como as picadas Juca Rodrigues e João Alves, não constam do mapa, mesmo tendo constando no mapa de 1859 e em mapas posteriores.
    Este mapa igualmente me foi passado por Otavio Licht.
  • Um mapa muito bonito é o de Rio Pardinho, que estava encadernado em um livro comemorativo do centenário desta picada (vide bibliografia abaixo). Além de ser bem fiel à realidade, o mapa contém não só os números dos lotes coloniais, mas também os nomes dos respectivos proprietários em 1870. O mapa propriamente dito não está datado e provavelmente é de 1952, quando do Centenário da picada.
  • Outro mapa que não está datado é intitulado Provinzial Kolonie Santa Cruz. Obtive este mapa na Web, mas não tenho a fonte original. Trata-se de uma mapa em Alemão, que mostra a Colônia de Santa Cruz e as colônias ao seu redor, como Candelária, Rincão del Rey e Monte Alverne. Além de ser interessante por mostrar os nomes das Picadas também em Alemão, é o único dos mapas que obtive que indica a localização de algumas picadas. Deve ser do final do Século 19, pois as Picadas ao redor da cidade já estão estabelecidas. Não é muito preciso e, na região ao redor de Monte Alverne, parece conter incorreções.
  • Em 1922, quando o município tinha sua extensão máxima, foi confeccionado um mapa completo do município. O mapa mostra a divisão em distritos, em picadas e em lotes. Infelizmente, a cópia que obtive é de baixa resolução, o que prejudica uma aproximação maior, que permita ler os números dos lotes.
  • Do mesmo ano de 1922, é o mapa da sede do município. Os nomes das ruas já são os atuais (a leitura é prejudicada pela baixa resolução). É possível ver a divisão das quadras em terrenos e a localização das edificações que havia na época. Também estão identificadas as chácaras que havia ao redor da cidade, marcadas pelas letras “A” até “O”.
  • O mapa de Venâncio Aires de 1930 também pode ser interessante para o pesquisador interessado em Santa Cruz. No início da colonização, várias picadas no Oeste do município, próximas a Monte Alverne (Riotal) estavam ligadas à Colônia de Santa Cruz. Era nas igrejas de Santa Cruz que os habitantes daquelas colônias faziam seus registros. Este mapa mostra a divisão em picadas e lotes, mas os mesmos não estão numerados. Alguns poucos lotes têm seus proprietários identificados.

Primeiras picadas de Santa Cruz

Não é fácil determinar a cronologia exata de criação das várias picadas da Colônia de Santa Cruz, até porque os diferentes autores (vide bibliografia abaixo) relatam datas diferentes. Mesmo assim, parece bem provável que a ordem de criação das picadas da Colônia de Santa Cruz seja a seguinte:

A primeira picada aberta quando da criação da colônia foi a Picada de Santa Cruz. Alguns autores afirmam que esta picada corresponde ao início de uma estrada que havia sido aberta para ligar Rio Pardo com a região de Soledade. Por ter sido a primeira picada, mais tarde também era denominada Picada Velha (“Alte Pikade“). Em mapas mais recentes passou a receber a denominação de Linha Santa Cruz.

Apesar de tecnicamente não fazer parte de Santa Cruz, cabe mencionar a Colônia de Rincão del Rey, colônia particular criada em 1850 em Rio Pardo. Esta colônia recebeu basicamente migrantes que vinham das colônias já estabelecidas ao redor de São Leopoldo. É interessante mencioná-la pois seus habitantes usavam as igrejas de Santa Cruz para seus assentos de batismo, casamento e óbito.

Ao redor de 1851-1852, com a Picada Santa Cruz já razoavelmente ocupada, o Diretor da Colônia decidiu abrir a Picada Rio Pardinho, que também era chamada de Picada Nova (“Neue Pikade“) para distingui-la da picada “velha”.

Para estabelecer uma ligação entre as picadas Velha e Nova, na mesma época, foi criado o Travessão (“Querpikade”) ou Picada Travessa.

Ao redor de 1853-1854 (não identifiquei uma data precisa), começou a ocupação da Picada de Dona Josefa. Entre esta picada e a Picada de Rio Pardinho, foi criado o Travessão de Dona Josefa (no mapa de 1859, identificado por Travessão Rio Pardinho) — não confundir com a Picada Travessa do item precedente.

A sede da Colônia foi demarcada e começou a ser ocupada a partir de 1855. Esta povoação teve várias denominações: Faxinal, pois se situava dentro do Faxinal ou Sesmaria de João de Faria Rosa, Povoação de São João, como aparece no mapa de 1859 de Buff, Freguesia de Santa Cruz, como aparece no mapa de 1870, e Villa de Santa Cruz, no mapa de 1881.

Ainda antes de 1859, foram criadas a Picada Andreas, a Villa Theresa (hoje sede do município de Vera Cruz), a Picada Bom Jesus e a Picada São João, pois todas são mencionadas nos relatórios do Diretor Buff, que encerrou seu mandato em 1859.

Em 1859, teria sido criada a Picada Ferraz. Ela não consta do mapa de Buff de 1859, mas há relatos de ocupação de lotes a partir desta época.

Em 1859-1860, foi criada a Colônia de Monte Alverne (“Riotal), oficialmente uma colônia separada de Santa Cruz, mas administrativamente sempre a ela ligada.

É possível que algumas picadas ao Sul de Santa Cruz (entre elas, Linha João Alves, Cerro Alegre e São João da Serra) tenham sido criadas bem cedo. Elas não constam dos históricos da Colônia, mas seus habitantes já aparecem cedo nos registros das igrejas. Talvez fossem lotes comercializados por particulares e por isso ausentes dos relatos oficiais.

As demais picadas devem ter sido criadas após 1859-1860.

Bibliografia consultada

Para montar este breve histórico, além dos mapas mencionados, foram consultadas as seguintes obras:

  • Hardy Elmiro Martin, Santa Cruz do Sul – de Colônia a Freguesia – 1849-1859, Santa Cruz do Sul, Associação Pós Ensino em Santa Cruz, 1979 (Este livro cobre o período inicial da colônia e é baseado em extenso levantamento feito pelo Prof. Hardy Martin em arquivos e bibliotecas)
  • João Bittencourt de Menezes, Município de Santa Cruz, Santa Cruz do Sul, EDUNISC, 2005 (Trata-se de um relato de J. B. Menezes, que por 27 anos foi Secretário Geral da Intendência em Santa Cruz. A edição original é de 1914. A edição citada resultou de revisão por Arthur Rabuske)
  • Celeste Dummer et al., Vera Cruz – Tempo, Terra e Gente, Vera Cruz, LupaGraf, 2009 (Este livro, comemorativo do cinquentenário da emancipação de Vera Cruz, relata a história da então Vila Teresa e colônias próximas, desde seu surgimento até 1959)
  • Centenário da Colonização Alemã em Rio Pardinho, Santa Cruz do Sul, Gráfica Comercial Bins e Rech, 1952 (Contém não somente a história de Rio Pardinho, mas também as biografias de muitas famílias que lá residiram. O mapa de 1870 encontra-se nele encadernado. Está disponível na Web)
  • Verband Deutscher Vereine (Herausgeber), Hundert Jahre Deutschtum in Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Typographie do Centro, 1924 (Obra extensa, descrevendo a imigração Alemã em seu primeiro centenário – contém uma tabela com a cronologia das várias colônias)
  • Jean Roche, A Colonização Alemã e o Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Editora Globo, 1962 (outro extenso tratado sobre a colonização Alemã no RS)

Registros de lotes coloniais na Web

Ao redor de 1881, Carlos Trein Filho, o autor do mapa do mesmo ano, levantou os proprietários dos lotes coloniais. O resultado deste levantamento, na forma de fichas, uma por lote, está disponível no Familysearch.

Abaixo vão os links para os cadastrados de cada picada. Para cada uma é informado o códice (livro) correspondente no AHRS – Arquivo Histórico do RS: